Cancioneiro Geral dos Açores
Autor: Armando Cortês-Rodrigues
3º Volume
( Apanhado de todas as quadras cantadas nas ilhas dos Açores )

Balhos

1- ABANA

Abana, casaca, abana,
Abana, mas devagar;
Eu sou menina solteira
Também quero namorar.
(Sta.Maria)

Abana, casaca, abana,
Abana devagarinho;
Eu tenho sete camisas
Todas sete de paninho.
(S.Miguel)

Abana, casaca, abana,
Abana, não tenhas dó;
Estes senhores d'agora
São ricos, têm uma só.
(S.Miguel)

Abana, abana a casaca,
Abana, não tenhas medo;
Teu pai te quer degredar,
Eu serei o teu degredo.
(Terceira)

Abana, casaca, abana,
Abana por aí abaixo;
Eu perdi o meu amor,
Ando a ver se ainda o acho.
(Graciosa)

Abana, casaca, abana,
Abana e sacode o pó;
Eu tenho sete casacas
Todas sete de filó.
(Faial)

Abana, casaca, abana,
Abana, não tenhas dó;
Eu tenho sete casacas
Do tempo de minha avó.
(Faial)

Abana, casaca, abana,
Abana, torna a abanar;
Estes senhores de casaca
Sempre têm outro lugar.
(Faial)

Abana, casaca, abana,
Abana, torna a abanar;
Eu tenho sete casacas
Todas sete por talhar.
(Faial)

Abana, casaca, abana,
Abana, torna a abanar;
Quem tem casacas, abana,
Quem as não tem, vai comprar.
(Faial)

Abana, casaca, abana,
Cada qual puxa seu par;
Dai a volta, meus senhores,
Que o balho vai terminar.
(Faial)

2- BALÃO

Afasta, janota, afasta,
Deixa passar o Balão;
O Balão é de madeira,
Forrado de papelão.
(Sta.Maria)

Afasta, janota, afasta,
Deixa passar o Balão;
Que lindo botão de rosa
Trago eu na minha mão.
(S.Miguel)

Arreda, povo, arreda,
Deixa passar o Balão;
O Balão é de giesta
Forrado de papelão.
(S.Miguel)

Esta moda do Balão
Inda agora aqui chegou;
Filha do Duque Saldanha
Foi quem primeiro a usou.
(S.Miguel)

Esta moda do Balão
No que havéra agora dar:
As mulheres deixam os homens,
Para tornar a casar.
(S.Miguel)

Esta moda do Balão
Veio agora no patacho,
As meninas que a usam
Entra-lhe(s) o fresco por baixo.
(S.Miguel)

3- BELA AURORA

A Bela Aurora chorava,
Ela no pranto dizia:
Já me morreu o meu bem,
Não posso ter alegria.
(Sta.Maria)

A Bela Aurora chorava,
Seu pranto era desta sorte:
Já me morreu o meu bem,
Só por mim não vem a morte.
(Sta.Maria)

Aurora, feliz Aurora,
Aurora, por isso digo,
Claro Sol, divina neve,
Quem me dera amores contigo.
(Sta.Maria)

Aurora, meu bem, Aurora,
Aurora, detrás dos montes;
Uma hora te não veja,
Meus olhos são duas fontes.
(Sta.Maria)

Aurora, meu bem, Aurora,
Deixa rasgar a baeta,
Trago-te no coração,
Na redadeira gaveta.
(Sta.Maria)

Aurora, porque vieste,
Quando eu estava dormindo?
Acordei à matinada,
Bela Aurora ía fugindo.
(Sta.Maria)

Aurora, querida Aurora,
Aurora no seu jonjal,
Minh'alma morre pela tua,
A tua não sei por qual.
(Sta.Maria)

Aurora, querida Aurora,
Aurora, por isso o digo,
Não me deixes cá ficar
Aqui só e sem abrigo.
(Sta.Maria)

Aurora, senhora Aurora,
Aurora no seu biscal,
Minh'alma morre pla tua,
A tua não sei por qual.
(Sta.Maria)

Bela Aurora, se te atreves
A prender quem 'stá ausente,
Aqui tens os meus cabelos,
Deles faz uma corrente.
(Sta.Maria)

Encontrei a Bela Aurora,
Comendo milho torrado;
Eu lhe pedi um grãozinho,
Ela me deu um punhado.
(Sta.Maria)

Encontrei a Bela Aurora,
No caminho a chorar,
Sem poder calçar as meias,
Eu é que lhas fui calçar.
(Sta.Maria)

Encontrei a Bela Aurora
No mato fazendo lenha,
Cum coletinho redondo,
Sua saia de estamenha.
(Sta.Maria)

Encontrei a Bela Aurora
Penteadinha de tranças,
A brincar com uma flor,
Que é brinquedo de crianças.
(Sta.Maria)

Não cantes a Bela Aurora,
Que não a sabes cantar;
Bela Aurora não é tua,
É dos peixinhos do mar.
(Sta.Maria)

A Bela Aurora chorava,
Ela no pranto dizia:
Já me morreu o meu bem,
Aquele por quem morria.
(S.Miguel)

A Bela Aurora chorava,
Ela no pronto dizia:
Já morreu o meu amor,
Nunca mais tenho alegria.
(S.Miguel)

A Bela Aurora chorava,
Ela no pranto dizia:
Já não tenho o meu amor,
Minha doce companhia.
(S.Miguel)

A Bela Aurora no mato,
Não sei como não tem medo;
Faz a cama, dorme só,
Debaixo do arvoredo.
(S.Miguel)

Alegres felicidades
Tenhais, minha Bela Aurora,
Na companhia de quem
Não posso dizer agora.
(S.Miguel)

Aqui vem a Bela Aurora,
Ela aqui já vem chegando;
Seus sapatos vêm rangendo,
Oh! que graça lhe vêm dando.
(S.Miguel)

Aurora, meu bem, Aurora,
Aurora, minha flor,
Hei-de casar cuma Aurora,
Seja ela que Aurora for.
(S.Miguel)

Aurora, meu bem, Aurora,
Aurora, por isso digo,
Inda que meu pai não queira,
Quem me dera d'ir contigo.
(S.Miguel)

Aurora, meu bem, Aurora,
Daqui não sei para onde,
Para a nascência do Sol,
Para onde a Lua se esconde.
(S.Miguel)

Aurora, meu bem, Aurora,
Espelho do meu vestir,
Quem toma amores com a Aurora
Vai ao céu e torna a vir.
(S.Miguel)

Aurora, meu bem, Aurora,
Meu galhinho de laranja,
No melhor gozo da vida,
Vem a morte, desarranja.
(S.Miguel)

Aurora, meu bem, Aurora,
Não te deixes seduzir,
Que o Sol é macho e dos machos
A mulher deve fugir.
(S.Miguel)

Aurora, meu bem, Aurora,
Ó vida, laré, já vou;
Vou-me para a mãe do céu,
Para o pai que me criou.
(S.Miguel)

Aurora, querida Aurora,
Ela no pranto dizia:
Já lá vai o meu amor,
Minha luz, minh'alegria.
(S.Miguel)

Bela Aurora, Bela Aurora,
Aurora no meu quintal,
Minh'alma morre pla tua,
A tua não sei por qual.
(S.Miguel)

Bela Aurora, põe-te em pé,
Levanta-te, se estás caída,
Vem-me ajudar a passar
Estes dois dias de vida.
(S.Miguel)

Bela Aurora, rei dos balhos,
Raínha dos instrumentos,
Foste a causa dos meus males
E dos meus padecimentos.
(S.Miguel)

Dentro de dois altos picos,
Vi sair a Bela Aurora,
Toda vestida de luto,
Que faz pena a quem adora.
(S.Miguel)

Encontrei a Bela Aurora
No mato cortando lenha,
Cum machadinho de prata,
Sua saia de estamenha.
(S.Miguel)

Encontrei a Bela Aurora
No mato fazendo lenha,
Sua saia de serguilha,
Seu casaco de estamenha.
(S.Miguel)

Não cantas a Bela Aurora,
Que não a sabes cantar;
Bela Aurora não é tua,
É lá dos homens do mar.
(S.Miguel)

Vem comigo, vamos juntos,
Para ver a Bela Aurora,
Pra brincar no domingo
Do meio-dia prá uma hora.
(S.Miguel)

A Bela Aurora da serra,
Ela diz que não tem medo;
Faz a cama, dorme só,
Debaixo do arvoredo.
(Terceira)

Ao romper da Bela Aurora
Sai o pastor da cabana,
A dizer em altos gritos:
Triste vida tem quem ama.
(Terceira)

A Aurora vai pela serra,
Corre que desaparece;
Mulher que se fia em homens
Grande castigo merece.
(Graciosa)

A Aurora vai pela serra,
Descalça, pisando flores;
Vai dizendo em altas vozes:
Triste de quem tem amores!
(Graciosa)

A Aurora vai prateada,
O claro dia amanhece;
Tudo se alegra  no mundo
Só a minh'alma entristece.
(Graciosa)

A Bela Aurora chorava
E no seu pranto dizia:
Desviado do céu seja
Quem do meu bem me desvia.
(Graciosa)

Encontrei a Bela Aurora
Ao canto do seu jardim;
Estava fazendo a ceia
Com lenha do alecrim.
(Graciosa)

Ao romper da Bela Aurora
Sai o pastor da cabana,
Gritando em altas vozes:
Triste vida tem quem ama.
(S.Jorge)

Ao romper da Bela Aurora
Sai o pastor da cabana,
Gritando em altas vozes:
Muito padece quem ama.
(Faial)

Trago o retrato da Aurora
Na banda do meu casaco;
Antes que a Aurora se vá
Cá me fica o seu retrato.
(Faial)

Trago o retrato da Aurora
Na roda do meu vestido;
Antes que a Aurora se vá
Fica o retrato comigo.
(Faial)

Bela Aurora está no mato
Debaixo do alvoredo,
Descascando os pintainhos
Prás meninas do Lajedo.
(Flores)

4 - BRAVO

Eu fui à terra dos Bravos
Para ver se embravecia,
Cada vez fiquei mais manso
Pela tua companhia.
(Terceira)

Eu fui à terra dos Bravos
Vestida de azul-escuro;
O amor que fala a rir,
Nem é firme, nem seguro.
(Terceira)

Eu fui à terra dos Bravos
Vestidinha de vermelho;
O mais bravo que lá vi
Foi um mansinho coelho.
(Terceira)

5- CANINHA VERDE

A Cana Verde me disse
Que eu que havia de morrer;
Vai-te embora, Cana Verde,
Não me tornes a apar'cer.
(S.Miguel)

A Cana Verde na costa
Deita raízes na areia;
Não faço mal a ninguém,
Todo o mundo me falseia.
(S.Miguel)

Cana Verde ri-qui-qui,
Cana Verde ri-có-có;
Quem canta a Caninha Verde
São netos da minha avó.
(S.Miguel)

Encostei-me à Cana Verde,
Á cana do meu quintal;
Fui falar ao meu amor,
Minha mãe não deu por tal.
(S.Miguel)

Eu plantei a Cana Verde
Á beira do chafariz;
Bem plantada, mal plantada,
Plantei-a como quis.
(S.Miguel)

Olha para a Cana Verde
Enterradinha na areia,
Quem a for desenterrar,
Tem cem anos de cadeia.
(S.Miguel)

Olha para a Cana Verde
No lodo enterradinha,
Se a forem desenterrar,
A culpa não será minha.
(S.Miguel)

Ó linda Caninha Verde,
Quem soubera a tua fim...
Linda cara, lindos olhos,
Vira-te cá para mim.
(S.Miguel)

Ó minha Caninha Verde,
Anda à roda do vapor;
Inda está para nascer
Quem há-de ser meu amor.
(S.Miguel)

Ó minha Caninha Verde,
Bem te vejo verdejar;
Bem te vejo, não te logro,
Quem te pudesse lograr.
(S.Miguel)

Ó minha Caninha Verde,
No quintal do meu patrão,
Quem não quer que o mundo fale
Não lhe dê ocasião.
(S.Miguel)

Ó minha Caninha Verde,
Ó minha Verde Caninha,
Enterrada na areia,
Na areia enterradinha.
(S.Miguel)

Ó minha Caninha Verde,
Ó minha Verde Caninha,
Se eu soubera que cá estavas,
Inda mais depressa vinha.
(S.Miguel)

Ó minha Caninha Verde,
Quebradinha pelo nó,
Minhas falas são pra todos,
Meu coração pra ti só.
(S.Miguel)

Ó minha Verde Caninha,
Verde cana de enganar,
Vai pra baixo, vai pra cima,
Vai pra cima, vai pró ar.
(S.Miguel)

Cana Verde, cana seca,
Por dentro toda ela é oca;
Quem me dera de alcançar
Falinhas da tua boca.
(S.Jorge)

Chamaste-me Cana Verde,
Cana do Canavial;
Quem me chama cana verde,
Quer-me bem; não me quer mal.
(S.Jorge)

Encostei-me à Cana Verde,
A Cana Verde rangiu;
Ía para te falar,
Teu pai, tua mãe sentiu.
(S.Jorge)

 

 

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