Cada vez que vou à missa
Ao tomar a água benta,
Logo olho e se te vejo,
Algum pecado me tenta.
(Sta.Maria)
Calai, povo, calai povo,
Não façais tamanha aldeia,
Pode vir o regedor
Que nos meta na cadeia.
(Corvo)
Candeia que não dá luz
Não se prega na parede;
Amor, que não tem firmeza
Não se faz mais caso dele.
(Sta.Maria)
Cantando, cantei, cantava,
Cantava, cantei, cantando,
Chorando, chorei, chorava,
Chorava, chorei, chorando.
(S.Miguel)
Chorava, chorei, chorando,
Chorando, chorei, chorava,
Chorava pelo meu bem
Que tão cedo me largava.
(S.Miguel)
Carvões, que já foram brasas,
Com pouco lume se acendem,
Amores, que já foram d'alma,
Com poucas falas se rendem.
(Flores)
Caso de amor tão fingido
Eu já fiz, hoje não faço;
Eu por ti já dei a vida,
Hoje não dou nem um passo.
(Sta.Maria)
Castelo, negro Castelo,
És para mim um ladrão,
Se inteirinho não me entregas
Esse amor que tens na mão.
(Terceira)
Chamaste-me à falsa fé
Pra me dizer um segredo;
Falinhas às escondidas
Não as quero, tenho medo.
(Faial)
Chamaste-me amarelinha,
Amarela quero ser;
Amarela, como oiro,
Que mais posso eu valer?
(Pico)
Chamaste-me pedra fina,
Mas não do vosso tesoiro:
Eu sou pedra e vós anel,
Eu diamante e vós oiro.
(Sta.Maria)
Cheguei à idade brilhante
Á bela estação das flores
E em vez de afectos chorei
Por meus primeiros amores.
(Sta.Maria)
Cheguei aqui por te ver,
Por te ver aqui cheguei;
Só cá vim pela lembrança
Do tempo em que te amei.
(Terceira)
Cheguei-me para o meu bem,
Para o meu bem me cheguei:
O segredo que lhe disse
Ele o sabe e eu o sei.
(Terceira)
Cidade, por ser cidade,
Por ter o nome que tem,
Não há terra como esta
Para amar e querer bem.
(S.Miguel)
Coitado de quem não tem
Grandezas a oferecer,
Fica isento de algum bem
Que podia pretender.
(S.Jorge)
Coitado de quem no mundo
Passa a vida a navegar:
Uns dias passa sem ceia,
Outros dias sem jantar.
(Pico)
Coitado, o pobre soldado
Quando está de sentinela:
Vê passar a sua amada,
Não pode falar com ela.
(Faial)
Coitado quem tem amores
Pela freguesia alheia,
Quantas vezes acontece
O jantar servir de ceia.
(S.Jorge)
Com vergonha não vos olho,
Com vergonha não olhais,
Com vergonha não vos peço,
Com vergonha não me dais.
(Graciosa)
Contigo em pobre choça,
Mais contente viveria
Do que em soberbos palácios,
Sem a tua companhia.
(S.Jorge)
Contigo sonho, em ti falo,
Em ti penso, em ti discorro,
Por ti penso, por ti choro,
Por ti vivo, por ti morro.
(Sta.Maria)
Cum cigarro Santa Justa,
Com três pingos de água fria,
Cum beijo duma donzela,
Já um homem passa o dia.
(S.Miguel)
Cupido perdeu as setas
Já não tem com que atirar,
Dá as setas ao Cupido
Que o menino quer brincar.
(Terceira)
Cupido, rei dos amantes,
Aprendeu a cravador,
Para cravar diamantes
No peito do meu amor.
(Terceira)
Cupido vai pela serra
Com dois ramos à porfia,
Vai dizendo: Viva, viva,
Quem faz anos neste dia.
(Terceira)
Dá-me a minha navalhinha
Que me tomaste da mão;
Dou-te a alma, dou-te a vida,
Mas a navalhinha não.
(S.Miguel)
Da minha casa até aqui
Dei cento e dez passadas;
Outras tantas eu daria
Todas por bem empregadas.
(S.Jorge)
Da minha janela à tua
Está um fio d'algodão;
Todos passam, não se prendem,
Só eu fiquei na prisão.
(Sta.Maria)
Daqui onde estou bem vejo
Duas meninas iguais;
Se eu quiser dizer bem sei
De qual delas gosto mais.
(S.Jorge)
Das filhas da desventura
Devemos ter compaixão;
São mulheres como as mais
E filhas de Eva e Adão.
(S.Miguel)
Da tua porta pra dentro
Não deixes entrar ninguém;
Espera, tem paciência,
Que eu hei-de ser o teu bem.
(S.Jorge)
Debaixo da obediência
Meu coração aqui pousa;
A todos peço licença
Pra dizer alguma coisa.
(S.Miguel)
Dei alta pra ser soldado,
Já estou arrependido;
O dinheiro já está gasto,
O meu corpo está vendido.
(S.Jorge)
Deitei-me por aí abaixo
Como um rapaz atrevido;
Não há furão que me apanhe,
Senão esse teu sentido.
(S.Miguel)
Deixaste-me a mim por outro
Isso lá não faz ao caso,
Também as flores se apanham
E se plantam noutro vaso.
(S.Jorge)
Deixa-me ir por i abaixo
Como quem vai buscar lume;
Hei-de entrar, hei-de sair,
Para mim não há tapuma.
(Flores)
De passar na tua rua
Não me tenho arrependido:
Muitos cães me têm ladrado,
Nenhum cão me tem mordido.
(S.Miguel)
De que me serve querer-te,
Ter a fama de te amar,
Cativar-me aos teus preceitos
Para outra te gozar.
(Corvo)
De tão longe vim, querida,
Apenas para te ver,
Rompendo tanto caminho
Com risco de me perder.
(Sta.Maria)
Deu-me sono fui dormir,
Na fresquidão me deitei;
Acordei, achei-me só,
Com que mágoa não fiquei.
(S.Miguel)
Deu-me sono no mirante,
Na fresquidão me deitei;
No corrimento das águas
O teu retrato tirei.
(S.Miguel)
Deus me dera de embarcar
Numa viagem comprida
Tendo-te sempre a meu lado
No resto da minha vida.
(Pico)
Digam lá o que disserem,
O que dizem pouco importa,
Não há degrau, nem de torre,
Igual ao da tua porta.
(Pico)
Disseram que tu dizias,
Que disseram, quem tal crê,
Que disseram que eu te disse,
Que disseram não sei quê.
(S.Miguel)
Disseste a quem já me disse
Que me não podias ver;
Se o disseste, está bem dito,
Muito gostei de o saber.
(Corvo)
Dizei lá onde morais,
Onde mora a vossa gente,
Que eu quero ir visitar-vos,
Visto que meu pai consente.
(S.Miguel)
Dizer o teu lindo nome
É pra mim grande prazer;
Para viver sempre alegre,
Vou dizê-lo até morrer.
(Terceira)
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