Cancioneiro Geral dos Açores
Autor: Armando Cortês-Rodrigues
3º Volume
( Apanhado de todas as quadras cantadas nas ilhas dos Açores )

TEMPO

Nunca houve mar sem ondas,
Nem praia sem ter areia;
Eu sou a tua prisão,
Tu és a minha cadeia.
(S.Miguel)

Nunca o teu rosto mimoso
Pela minha rua assoma;
Se não sabes onde eu moro,
Quem tem boca, vai a Roma.
(Graciosa)

Nunca vi o mar sem água,
Nem jardim que não dê flores,
Nem velhas sem ter achaques,
Nem moças sem ter amores.
(S.Miguel)

Nunca vi o mar sem água,
Nem jardim sem arvoredo,
Nem formosa sem senão,
Nem letrado sem seu erro.
(S.Jorge)

Nunca vi prado sem erva,
Nunca vi praia sem mar,
Nem formosa sem senão,
Nem letrado sem errar.
(S.Miguel)

O álamo pega de estaca
Ou no vale ou na pendença;
A mulher é carne fraca,
Tudo faz e nada pensa.
(S.Miguel)

O amor e o dinheiro
É negócio pretendente;
O dinheiro é arrogante,
Não quer que lhe metam dente.
(Sta.Maria)

O amor e o dinheiro
Não pode andar encoberto;
O dinheiro é chocalheiro,
O amor desinquieto.
(S.Miguel)

Oh! meu Deus, que já é noite,
Por artes se foi a tarde;
Não há bem que sempre dure,
Nem mal que se não acabe.
(S.Miguel)

Ó homem, pensa na morte,
Não penses na formosura,
Olha que tudo se acaba
No fundo da sepultura.
(S.Jorge)

Oh! que rua de comprida,
Oh! que ladeira de forte,
Já que Deus nos deu a vida,
Também nos dará a morte.
(Sta.Maria)

O inferno não se fez
Para semear canela
Fez-se prás murmuradeiras
Que murmuram à janela.
(Flores)

Ó menina do pé leve,
Da cabeça muito mais,
Só dais conselhos aos outros,
Para vós não os tomais.
(S.Jorge)

Ó menina, não despreze
O pobre pelo não ter,
Que pode ao rico faltar,
Pode o pobre enriquecer.
(Corvo)

Ó menina, nunca contes
A tua pena a ninguém...
Que uma amiga tem amiga,
Outra amiga, amiga tem.
(Terceira)

Ó menina, nunca digas
O teu segredo a ninguém:
Que uma amiga tem amiga,
E essa amiga, amiga tem.
(S.Miguel)

Ó menina tu não contes
Tuas mágoas a ninguém:
Uns dizem: Muito me pesa,
Outros dizem: Inda bem.
(Flores)

Ó menina, você cuida
Que não há outra no mundo?
Não é o caldo tão gordo
Que se lhe não veja o fundo.
(S.Jorge)

Ó meu amor, se tu queres
Toda a vida viver bem,
Hás-de ouvir, hás-de calar,
Não dizer mal de ninguém.
(Terceira)

Ó meu bem, corre, não tardes,
Vem sossegar minha dor;
Não arde o lume sem lenha,
Nem há vida sem amor.
(Sta.Maria)

Ó minha bela menina,
Dê o sim, mas só a um;
Que às vezes quem mais escolhe
É que fica sem nenhum.
(S.Miguel)

Ó minha bela menina,
Escuta, repara bem,
Olha que os matos têm olhos,
Paredes ouvidos têm.
(S.Jorge)

Ó minha bela menina,
Ó minha menina bela,
Ditosa da criatura
Que todos dizem bem dela.
(Corvo)

Ó minha bela menina,
Ó minha menina bela,
Quem sabe dela sou eu,
Quem sabe de mim, é ela.
(Sta.Maria)

 

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